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No Via Política: Luc Ferry pede uma caipirinha

2010 às 19.57hs, postado por Alexandre de Santi

Filósofo francês, promotor da ética da “vida boa” e ex-ministro da Educação em seu país, ensina como devemos nos preparar para uma passagem livre de angústias na terra.

Por Alexandre de Santi, publicado no site Via Política.

Suado na testa e com os cabelos desgrenhados na frente do rosto, Luc Ferry surge na sala VIP do Centro de Eventos do BarraShoppingSul, em Porto Alegre, como se tivesse tropeçado em algo. O filósofo francês, ex-ministro da Educação da França, promotor da polêmica lei que proibiu símbolos religiosos nas escolas (como os véus das muçulmanas), veio à capital gaúcha no dia 21 de maio e, por mais de uma hora e meia, explicou ao auditório contíguo as bases da “ética da vida boa”. Ferry era um dos convidados do 6º Fórum Político Unimed/RS, que tinha o tema Pensar: um ato político.

Aos 57 anos, soltando uma baforada de cansaço no ar, às 18h30 de uma sexta-feira, Ferry não parecia estar no auge da vida boa. Desde o início da tarde, quando a assessoria do evento havia informado aos jornalistas que o francês chegara atrasado de Curitiba e que, por isso, iria reduzir o tempo disponível para entrevistas, sabia-se que a plateia encontraria um Luc Ferry cansado da maratona de palestras. Ao cumprimentar os dois repórteres que o esperavam para uma conversa, Ferry usou o inglês para dizer que estava exausto e que gostaria de encerrar o papo rapidamente. Sentou na cadeira, posicionou o microfone na gravata e disparou respostas em francês, com o auxílio de uma tradutora.

O francês, no entanto, duas horas antes, subira ainda altivo no púlpito do centro de eventos e, sem o auxílio de computador ou discurso escrito, mostrou como se conduz uma palestra. Em francês, língua na qual grande parte da plateia não era fluente (os radinhos de tradução estavam na cabeça de todos), Ferry foi objetivo: disse que estava lá para mostrar que era possível ter espiritualidade sem religião e que ateus e agnósticos podem atingir a vida boa sem medo de se sentirem vazios. O tema da palestra vem sendo abordado pelo francês em diversos livros que se tornaram best sellers em todo o mundo, como Aprender a Viver e A Sabedoria dos Mitos Gregos. Mais do que influenciar o mundo acadêmico, Ferry tem uma clara preocupação de levar a filosofia para a mesa de bar, para a política, para as artes, como faziam os gregos há milhares de anos.

Mesmo em Porto Alegre, para uma plateia amigável, Ferry usou o púlpito para mostrar porque acredita que uma formação laica é mais produtiva na sala de aula. “A escola não é a casa dos pais”, repetiu o filósofo, numa referência à polêmica lei francesa que proibiu o uso de véus muçulmanos e a estrela de David (ou qualquer outro símbolo religioso) em sala de aula, um episódio que marcou a sua passagem pelo governo francês entre 2002 e 2004 e que, desde então, persegue o escritor e professor por onde vá.
Ferry deixou claro que respeita todas as religiões, mas que a liberdade de pensamento, despida dos dogmas e credos, tem um efeito mais construtivo na formação dos jovens. Promover escolas que não reproduzam o meio familiar das crianças ou conflitos seculares como a disputa de judeus e árabes, acrescentou, é o caminho para permitir que elas façam escolhas sobre suas vidas e, cada um a sua maneira, busque a vida boa. No seminário, Luc Ferry deixou no ar uma definição sobre o que seria a vida boa, mas contou uma passagem da Odisseia, de Homero, como síntese das escolhas que o homem faz – e sempre fez – para buscar conforto na vida.

Na Rapsódia V da Odisseia, Homero narra como Ulisses deixou a ilha onde passou anos com a bela e encantadora deusa Calipso. O heroi grego não chegou à ilha por vontade própria: foi vitimado por um naufrágio que matou toda a sua tripulação e destruiu seu barco. Calipso salvou Ulisses e, com o charme dos imortais, transformou-o em amante. Acontece que Ulisses, embora não tivesse conseguido resistir à tentação da deusa, queria voltar para casa, em Ítaca, para os braços da esposa Penélope. Na ilha, o heroi tinha tudo: uma bela mulher, comida e vivia em uma gruta espetacular. Mas não era feliz. Passava os dias chorando na praia, saudoso de casa.

Os deuses gregos então decidiram salvar Ulisses e ordenaram que Calipso libertasse o viajante e o ajudasse a construir um barco e singrar os mares até Ítaca. A deusa ficou furiosa: queria Ulisses como marido. Para não irritar Zeus, Calipso libertou Ulisses, mas ofereceu teto, amor e a imortalidade. Se ficasse com ela, uma mulher muito mais bonita que Penélope, como o próprio marido admitia, Ulisses poderia viver para sempre. Para Luc Ferry, o dilema do herói é o dilema da humanidade. É melhor viver infeliz no presente, mesmo ao lado de uma deusa, com a promessa da imortalidade, ou devemos encarar o mar e navegar em busca das coisas que nos deixam felizes, ainda que possamos morrer na travessia? Ulisses escolhe voltar para Penélope.

“Essa recusa de Ulisses é o ponto de partida da filosofia”, disse o francês. E, segundo Ferry, não apenas a Odisseia expõe o dilema fundamental do homem como também traz uma resposta. “A vida mortal bem sucedida é mais que uma vida imortal mal sucedida”, defende. O dilema de Ulisses tem pelo menos dois critérios que servem para todos os humanos, de acordo com a visão do filósofo. O primeiro é aceitar a mortalidade. Porque só a possibilidade da morte, segundo Ferry, dá sentido para o valor das decisões feitas em vida. O segundo critério é perseguir os desejos no presente, como fez Ulisses.

O filósofo vê genialidade nos mitos gregos como guia para a busca da boa vida, no entanto ressaltou a necessidade de modernizar o pensamento para interpretá-los. Três revoluções na mentalidade humana transformaram para sempre os conceitos dos gregos, enumera Ferry: o cristianismo, a revolução científica e a revolução humanista. Agora, acredita o filósofo, a humanidade passa por uma quarta revolução, a do amor. Para ele, os casamentos feitos por amor (e não mais por arranjos sociais ou por negócios) estão mudando a maneira do homem pensar. Porque, até então, o sagrado para o homem era a religião ou os ideais e, hoje, as pessoas vivem pela família. No Ocidente, frisa, as pessoas não morrem mais pela religião, pela pátria ou pela revolução. Apenas pela família. “A família nunca esteve melhor que hoje. Os pais estão amando seus filhos como nunca antes. Os filhos estão sendo sacralizados na nossa época. Estamos vivendo uma revolução do sagrado”, diz. “Vamos abrir um champagne a estas mudanças. É a melhor notícia dos últimos séculos, talvez até dos dois últimos milênios”, encerrou a palestra.

Após os 15 minutos de conversa com a imprensa, Ferry se mostrou indisposto. Fez sinal de que precisava fumar um cigarro. Encerrou a conversa cordialmente, mas enfatizou que estava exausto e que precisava de uma caipirinha. E saiu ao lado do jornalista, escritor e professor universitário Juremir Machado da Silva, que moderou o debate, e do ex-vice-governador gaúcho e professor universitário Antônio Hohlfeldt. No seu Twitter, Juremir contou que tomou caipirinha de morango com Ferry, um drink que talvez tivesse o sabor do dever cumprido, da fuga do trabalho, do presente e da mortalidade.

Seria esta a vida boa?

O vídeo e a reportagem podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citadas a autora e as fontes.

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1 comentário

Alastair Austin comentou em 2010-06-11 às 09:18

Mesmo em Porto Alegre, para uma plateia amigável, Ferry usou o púlpito para mostrar porque acredita que uma formação laica é mais produtiva na sala de aula. “A escola não é a casa dos pais”, repetiu o filósofo, numa referência à polêmica lei francesa que proibiu o uso de véus muçulmanos e a estrela de David (ou qualquer outro símbolo religioso) em sala de aula, um episódio que marcou a sua passagem pelo governo francês entre 2002 e 2004 e que, desde então, persegue o escritor e professor por onde vá.Ferry deixou claro que respeita todas as religiões, mas que a liberdade de pensamento, despida dos dogmas e credos, tem um efeito mais construtivo na formação dos jovens. Promover escolas que não reproduzam o meio familiar das crianças ou conflitos seculares como a disputa de judeus e árabes, acrescentou, é o caminho para permitir que elas façam escolhas sobre suas vidas e, cada um a sua maneira, busque a vida boa. No seminário, Luc Ferry deixou no ar uma definição sobre o que seria a vida boa, mas contou uma passagem da Odisseia, de Homero, como síntese das escolhas que o homem faz – e sempre fez – para buscar conforto na vida.
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